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A pessoa está caminhando pela sala. Os passos seguem normalmente. Ao se aproximar de uma porta, porém, algo muda: eles podem ficar progressivamente menores e, por alguns segundos, a pessoa parece não conseguir avançar.

Os pés permanecem no chão, embora exista a intenção de continuar andando.

Pouco depois, o movimento pode reaparecer.

Para quem observa, a situação costuma causar estranhamento: se a pessoa estava andando, por que ela “travou” justamente naquele ponto?

Esse fenômeno é conhecido como freezing of gait (FOG), frequentemente traduzido como congelamento da marcha, e pode ocorrer em pessoas com Doença de Parkinson e outros parkinsonismos.

Mais do que uma dificuldade para caminhar, o freezing revela algo importante sobre o controle do movimento: andar é uma tarefa muito mais complexa do que simplesmente movimentar as pernas.

O que é o freezing na Doença de Parkinson?

O freezing é um fenômeno episódico caracterizado por uma redução importante ou ausência breve da progressão dos passos, apesar da intenção de continuar caminhando.

Algumas pessoas descrevem a sensação como se os pés estivessem “colados ao chão”. Em outras, podem surgir hesitações, passos muito pequenos ou movimentos rápidos e pouco eficazes dos membros inferiores, sem que o corpo consiga avançar adequadamente.

Uma característica importante é sua variabilidade.

A pessoa pode caminhar relativamente bem em determinado momento e, poucos metros depois, apresentar um episódio de freezing diante de uma mudança no ambiente ou na própria tarefa.

Além de interferir na mobilidade e na independência, o freezing é clinicamente relevante por sua associação com quedas e limitações funcionais. Por isso, compreender quando e em quais circunstâncias a pessoa trava é tão importante quanto identificar a presença do fenômeno.

Por que uma pessoa com Doença de Parkinson pode travar ao passar por uma porta?

Uma porta parece um elemento trivial do ambiente. Do ponto de vista do controle motor, entretanto, atravessá-la exige adaptações.

Ao caminhar por um ambiente amplo e aproximar-se de uma passagem, o Sistema Nervoso precisa considerar as características do espaço, ajustar a trajetória, adequar os passos e manter a progressão do corpo.

Em pessoas suscetíveis ao freezing, essa transição pode aumentar as demandas envolvidas na organização do movimento.

Estudos experimentais demonstraram que a largura da passagem pode influenciar a marcha. Pessoas com Parkinson e freezing apresentaram maior alteração do comprimento e da variabilidade dos passos diante de portas mais estreitas. Outros experimentos também conseguiram provocar episódios semelhantes ao freezing nas proximidades de passagens estreitas.

Mas a largura da porta não explica tudo.

Pesquisas também demonstram a influência de características como dimensões do ambiente, presença de obstáculos próximos à passagem, iluminação e outros elementos contextuais. Esses achados reforçam que processos visuomotores, atencionais e até emocionais podem participar do fenômeno.

Portanto, não existe uma explicação única para o freezing diante de uma porta.

Freezing não acontece apenas nas portas

As portas são apenas um exemplo bastante reconhecível.

O freezing também pode aparecer em situações como:

  • iniciar a caminhada;

  • realizar curvas;

  • mudar de direção;

  • aproximar-se de um destino;

  • deslocar-se por espaços estreitos;

  • executar outra tarefa enquanto caminha;

  • situações de estresse.

Isso ajuda a entender por que perguntar simplesmente “você consegue andar?” pode fornecer uma visão incompleta da funcionalidade de uma pessoa com Doença de Parkinson.

O contexto no qual ela caminha importa.

Quando caminhar deixa de ser tão automatizado

Grande parte da locomoção cotidiana ocorre com elevado grau de automatização.

Não precisamos controlar conscientemente cada componente de cada passo para atravessar uma sala. Essa organização automatizada do movimento permite que recursos cognitivos sejam utilizados simultaneamente para observar o ambiente, conversar, tomar decisões e responder ao que acontece ao redor.

Na Doença de Parkinson, alterações nos circuitos dos núcleos da base estão relacionadas a dificuldades na geração e regulação de movimentos automatizados.

Consequentemente, determinadas ações podem passar a exigir maior participação de processos atencionais e estratégias voluntárias.

Essa alteração da automatização, entretanto, é apenas uma das peças do problema. O freezing é considerado um fenômeno complexo, envolvendo a interação entre diferentes mecanismos motores, cognitivos, perceptivos e ambientais.

Por isso, explicá-lo simplesmente como falta de força, rigidez ou dificuldade de “mandar a perna andar” seria uma simplificação excessiva.

Por que conversar enquanto caminha pode mudar o movimento?

Imagine outra situação cotidiana.

A pessoa está caminhando e alguém faz uma pergunta. Ela precisa continuar andando enquanto organiza uma resposta. Em outra situação, pode estar carregando um objeto, procurando algo no ambiente ou decidindo para onde seguir.

Agora, caminhar deixou de ser a única tarefa.

Quando duas tarefas são realizadas simultaneamente, há maior demanda sobre os recursos disponíveis para organizar o comportamento. Essa condição é frequentemente estudada como dupla tarefa.

Na Doença de Parkinson, a interferência entre demandas motoras e cognitivas pode modificar diferentes características da marcha. Para algumas pessoas, contextos de maior demanda também podem favorecer dificuldades relacionadas ao freezing.

Isso não significa que uma pessoa com Parkinson deva simplesmente deixar de conversar enquanto caminha.

Significa algo clinicamente muito mais interessante:

é necessário compreender como aquela pessoa responde quando o movimento acontece em condições diferentes.

No consultório, a pessoa pode caminhar muito bem

Esse é um dos aspectos mais importantes para a Fisioterapia Neurofuncional Especializada.

Pedir ao paciente que caminhe alguns metros em linha reta fornece informações importantes, mas pode não reproduzir as circunstâncias em que as dificuldades aparecem no cotidiano.

Quando pertinente, uma avaliação funcional pode precisar investigar o que acontece quando a pessoa:

  • inicia e interrompe a caminhada;

  • realiza curvas;

  • muda de direção;

  • atravessa passagens;

  • aproxima-se de um destino;

  • modifica a velocidade;

  • precisa adaptar os passos ao ambiente;

  • executa uma tarefa cognitiva simultaneamente ao deslocamento.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas:

“Você consegue andar?”

Uma pergunta frequentemente mais informativa é:

“Em quais situações andar se torna mais difícil?”

Essa mudança parece pequena. Clinicamente, pode revelar muito.

Como a Fisioterapia Neurofuncional Especializada pode atuar em pessoas com Parkinson que apresentam freezing?

A Fisioterapia Neurofuncional Especializada dispõe de diferentes possibilidades de intervenção relacionadas à marcha, mobilidade, equilíbrio e funcionalidade na Doença de Parkinson.

O guideline clínico da American Physical Therapy Association (APTA) recomenda, entre outras intervenções, treinamento de marcha e utilização de pistas externas para pessoas com Parkinson. A recomendação para pistas externas é forte e sustentada por evidência de alta qualidade para diferentes desfechos motores e relacionados à marcha, incluindo benefícios relacionados ao freezing em determinados estudos.

As pistas podem utilizar informações visuais, auditivas, verbais ou atencionais para auxiliar a organização do movimento.

Isso, entretanto, não significa que exista uma pista universal ou uma “técnica para destravar” que deva ser aplicada indiscriminadamente.

A literatura demonstra variabilidade na resposta de pessoas que apresentam freezing às diferentes estratégias terapêuticas, reforçando a necessidade de considerar características individuais e o contexto em que os episódios aparecem.

Na prática clínica, interessa investigar:

Quando a pessoa trava?

O que acontece imediatamente antes?

Quais características do ambiente interferem?

Há mudanças durante curvas ou transições?

A dupla tarefa modifica a resposta?

Alguma pista ou estratégia facilita o movimento?

Qual é o impacto do freezing sobre a funcionalidade e a segurança?

É a partir dessa compreensão que as estratégias terapêuticas podem ser selecionadas e treinadas de maneira individualizada.

A técnica vem depois do raciocínio clínico.

E a Neuromodulação Não Invasiva?

A Neuromodulação Não Invasiva pode ser integrada ao tratamento de pessoas com Doença de Parkinson com o objetivo de modular redes neurais envolvidas na organização e no controle do movimento.

Em pessoas que apresentam freezing, essa abordagem é particularmente interessante porque o fenômeno não depende de uma única região cerebral. Ele envolve a interação entre diferentes redes motoras e cognitivas relacionadas à iniciação, organização e adaptação do movimento diante das demandas da tarefa e do ambiente.

Quando clinicamente indicada, a Neuromodulação pode ser associada à Fisioterapia Neurofuncional Especializada, criando uma oportunidade para integrar a modulação da atividade neural à experiência motora proporcionada pela intervenção fisioterapêutica.

Isso não significa utilizar a Neuromodulação simplesmente para “destravar” a pessoa. A proposta é mais ampla: considerar os mecanismos envolvidos, as características individuais, a funcionalidade e os objetivos terapêuticos para definir como diferentes recursos podem ser combinados.

No Instituto NeuroAlpha, a Neuromodulação Não Invasiva e a Fisioterapia Neurofuncional Especializada podem ser integradas de acordo com a indicação clínica e as características de cada pessoa.

A Neuromodulação pode criar condições para que o Sistema Nervoso responda à intervenção e à experiência motora.

Quando “travar” conta uma história sobre o movimento

Uma porta é apenas uma porta.

Até o momento em que atravessá-la modifica o movimento.

Para algumas pessoas com Doença de Parkinson, situações aparentemente simples do cotidiano revelam alterações que talvez não apareçam em uma avaliação restrita a movimentos isolados.

Observar essas situações permite compreender não apenas se a pessoa consegue caminhar, mas como o Sistema Nervoso organiza a caminhada diante das demandas do ambiente e da tarefa.

Esse é um princípio importante da avaliação fisioterapêutica:

o movimento não acontece isoladamente. O movimento acontece em contexto.

E compreender esse contexto pode ser decisivo para definir como intervir.

Uma porta pode parecer apenas um detalhe do ambiente, mas, para uma pessoa com Doença de Parkinson, pode revelar muito sobre como o Sistema Nervoso está organizando o movimento. Compreender quando, onde e em quais circunstâncias a pessoa “trava” permite olhar além do sintoma e direcionar a intervenção para aquilo que realmente importa: a pessoa, sua funcionalidade e sua relação com o ambiente e com o movimento. É nesse contexto que Fisioterapia Neurofuncional Especializada e Neuromodulação Não Invasiva podem integrar-se a um tratamento construído a partir de avaliação, raciocínio clínico e acompanhamento da resposta individual.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação individual por profissional habilitado.

Referências

Osborne JA, Botkin R, Colon-Semenza C, et al. Physical Therapist Management of Parkinson Disease: A Clinical Practice Guideline From the American Physical Therapy Association. Physical Therapy. 2022;102(4):pzab302.

Almeida QJ, Lebold CA. Freezing of gait in Parkinson's disease: a perceptual cause for a motor impairment? Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry. 2010;81(5):513–518.

Cowie D, Limousin P, Peters A, Hariz M, Day BL. Doorway-provoked freezing of gait in Parkinson's disease. Movement Disorders. 2012;27(4):492–499.

Cohen RG, Chao A, Nutt JG, Horak FB. Freezing of gait is associated with a mismatch between motor imagery and motor execution in narrow doorways, not with failure to judge doorway passability. Neuropsychologia. 2011;49(14):3981–3988.

Janssen S, et al. The effect of doorway characteristics on freezing of gait in Parkinson's disease. Frontiers in Neurology. 2023;14:1265409.

Curadoria científica e Responsabilidade Técnica

Profa. Dra. Cynthia Bedeschi

Neurocientista e Fisioterapeuta

Doutora em Neurociências e Comportamento — USP

CREFITO-3 46.056-F

Atualizado em 04 de setembro de 2026.